Geografia, Memória

Memória afetiva e ambientes de trabalho: encontros e despedidas.

O trabalho não é a maravilha que o senso comum prega, em boa parte dos casos ele vem carregado de exploração que promove estresse, cansado e alienação.

Porém, o trabalho é capaz de nos colocar em convivência com pessoas que nos deixam marcas positivas em nossa formação profissional com influências na vida pessoal, promove também aprendizagens únicas em ambientes que, a pesar de contraditórios, são férteis de experiências e reflete nas lembranças.

O relato a seguir é de um ilustre professor de Geografia para um amigo de trabalho, também professor de Geografia, ambos conhecidíssimos no mercado editorial didático-pedagógico dessa ciência.

A narrativa tem o mérito de mostrar como ocorrem as influências e como os caminhos se cruzam na trajetória da vida profissional. Além, disso vale a viagem agradável pelo mundo da sala de aula e dos livros. De minha parte, essas duas feras foram de extrema importância para minhas aulas.

Com vocês – Eustáquio de Sene.

Em memória do Professor Tito Márcio Garavello

“Fui aluno do Tito no Curso Anglo-Osasco em 1983-84. Quando iniciei o cursinho, depois de desistir da Faculdade de Economia e Administração de Osasco (FEAO), não sabia muito bem o que iria prestar. Só sabia que sonhava entrar na USP. Tito era professor de Geografia do Brasil e foi um dos responsáveis por eu optar pelo curso de Geografia (o outro foi o Demétrio Magnoli, que era professor de Geografia Geral). Suas aulas eram concisas, quase secas, como as vidas dos alunos do período noturno, porém, elegantes, entusiasmadas e interessantes. O que mais admirava em Tito era seu entusiasmo com a Geografia e com a profissão de professor. Isso seguramente me estimulou a fazer Geografia na USP e a ser professor de cursos pré-vestibular por vários anos, inclusive no próprio Anglo–Osasco (1987-1993). Não me lembro ao certo, mas creio que acabei entrando em seu lugar, quando ele decidiu dar aulas apenas no Anglo-São Paulo. Em minha curta permanência no Anglo-São Paulo (1987-1988), tive a oportunidade de ser seu colega.

“Calça Lee, calça Levi’s é no primeiro andar”. Nunca me esquecerei do Tito imitando os vendedores de calças que havia aos montes no centro de São Paulo. Na época do cursinho trabalhava no Conselho Regional de Contabilidade, na Rua 24 de Maio, e todo dia me deparava com as ofertas das então raras (e caras) calças jeans. Não que Tito fosse um daqueles estereó- tipos de professor de cursinho, muito pelo contrário, era sério, mas em sua seriedade, era engraçado. Tinha uma grande preocupação com a didática e falava uma linguagem clara que os alunos conseguiam entender. Procurava sempre estabelecer relações com a realidade dos estudantes para que o tema que estava explanando se tornasse contextualizado. Não me lembro exatamente em que contexto surgiu o anúncio das calças jeans, mas seguramente serviu para ilustrar algum ponto que ele estava explicando. Tito não era dado a brincadeiras gratuitas. Era um grande professor e seguramente deixa saudades em seus ex-alunos.

Quando mais tarde me tornei autor de livros educativos, também fui colega do Tito na Editora Scipione. Quando lancei meu primeiro livro – Geografia Geral e do Brasil: espaço geográfico e globalização, voltado para o ensino médio – fiz questão de levar um exemplar para o Tito. Fui até sua casa na Vila Yara, em Osasco, para lhe entregar o livro. Não me lembro das

palavras da dedicatória que lhe fiz, mas queria lhe mostrar reconhecimento por suas aulas e por ter contribuído para eu trilhar o caminho da Geografia. Entreguei-lhe o livro, ele o folheou, deu para seu filho e lascou: “Agora você tem um bom livro de Geografia para estudar.” Isso só poderia partir de uma pessoa bem humorada, generosa e humilde, características próprias de pessoas de bem com a vida, que sabem seu valor. É triste que sua vida tenha sido abreviada. Neste momento Tito deve estar dando aulas de Teografia do espaço sideral, com a mesma elegância e entusiasmo que dava aulas de Geografia do espaço brasileiro. Seguramente alguns de seus alunos prestarão Teografia na USP Celeste”.

Eustáquio de Sene.

Texto retirado na íntegra do: Informativo da ABRALE é uma publicação da Associação Brasileira dos Autores de Livros Educativos, 2009.

História, Memória

Cultura, arte e diversão nas vídeo locadoras de Rio Preto na década de 1980.

Em época de streaming, youtube e Netflix está vivendo uma geração que não faz ideia do que eram as vídeo locadoras. Esse lugares eram pontos de encontro nos quais se liam as resenhas dos filmes, trocavam-se ideias, rolavam dicas sobre os melhores filmes para se assistir, faziam-se análises dos diretores, atores e atrizes. Algumas locadoras vendiam refrigerantes e chocolates, os cartazes de filmes impressionavam na decoração e havia até funcionários da locadora especializados em atender os clientes para tirar dúvidas e dar as famosas dicas.

Imagem: Diário da Região, 25 jun. 1983.

Em São José do Rio Preto as locadoras tiveram um boom nas décadas de 1980 e 1990. Chegaram à primeira década do terceiro milênio, mas praticamente não sobreviveram a segunda década desse novo século.

No início da década de 1980 as locadoras eram praticamente clubes nos quais você se associava, pagava uma taxa mensal e tinha direito a alugar alguns filmes por mês. Depois, com o tempo, bastava preencher uma ficha para se associar, pela qual você pagava uma graninha. Nos finais de semana as locadoras ficavam cheias. Alugavam-se até os aparelhos de videocassete, para isso, você tinha de deixar um cheque de caução. Vale lembrar que esses aparelhos não eram para qualquer um, custavam muito caro. Algumas locadoras locadoras também alugavam fitas de vídeo game, era grande a movimentação, a qual promovia encontro de pessoas que combinavam alugar alguns filmes e ir à casa de alguém que tinha videocassete para assistir.

Imagem: Diário da Região, 19 març., 1987.

Em 1987, a cidade de Rio Preto tinha 16 vídeo locadoras, as quais atendiam aproximadamente 8 mil pessoas¹. Possivelmente o grande destaque era a Ovni Vídeo Clube, foi instalada em um imponente prédio na avenida Alberto Andaló, ali na esquina da rua Saldanha Marinho, depois foi para rua 15 de Novembro e chegou a ter filiais na rua Santa Paula, no Eldorado, e no início da av. N. S. da Paz, na Maceno. Frequentei muito essa vídeo locadora, era um luxo, a maior variedade de filmes, atendimento de excelência!

Imagem: Diário da Região 01 de jan. 1987.

Existiam outras espalhadas em especial pelo centro da cidade, dentre elas: a Vídeo Cidade, a Vídeo Mania, a Vídeo Way, a Canal 5, a Real Vídeo. Em alguns bairros existiam locadoras menores e que às vezes tinham interessantes promoções e mais facilidade no cadastro.

Imagem: Diário da Região, 17 maio, 1987.

Esses espaços promoviam a interação tanto no seu interior como fora dele quando se juntavam pessoas e iam às vídeo locadoras para pegar os filmes. Observávamos regras que eram postas ou convencionais, a regra das locadoras era rebubinar os filmes, se isso não acontecesse era multa na certa, se a entrega não fosse no dia também havia multa. Quando estávamos em grupo tínhamos que entrar em consenso sobre quais filmes levar. Quando se tratava de família, normalmente cada membro escolhia um filme.

Imagem: Diário da Região, 25 jun., 1983.

Quando ainda adolescente, batia uma curiosidade para ver o ambiente reservado aos filmes de “sacanagem”. Às vezes conseguíamos dar uma espiadinha. Mas os filmes que mais faziam sucesso eram os de ação, com destaque para série Rambo, Braddock, os filmes do Schwarzenegger, dentre outros nessa linhagem.

Nota:

  1. Diário da Região, Suplemento especial, 19 de març., 1987.
Geografia

O misticismo e o sobrenatural em alguns lugares de Rio Preto.

O que chamamos hoje de ciência trata-se basicamente de uma interpretação de mundo com métodos e técnicas próprios que começaram a se configurar mais estruturadamente a partir do Renascimento.

Extensões e interpretações subjetivas do mundo figuram entre os entendimentos mais antigos. Normalmente o misticismo e o sobrenatural estão ligados às religiões e sistemas de crenças, muitos dos quais existem há 5.000 mil anos, a Cabala e o Hinduísmo fazem parte dessas expressões.

O progresso que a ciência nos trouxe promoveu mudanças sem precedentes na história. Contudo, ainda guardamos conosco muito do misticismo e do sobrenatural. O misticismo e o sobrenatural, de modo geral, são vistos de forma pejorativa pelas pessoas não versadas nas humanidades. Obviamente são extensões que guardam uma significativa relação com crendices, senso comum, fanatismo etc. Tudo isso pode causar perigos e comportamentos que comprometem relações altruístas. A ciência também trás consigo seus perigos, mas são mais aceitáveis devido a capacidade de comprovação e aferição universal de seus resultados.

A pretensão aqui é mostrar e narrar histórias e determinados lugares de São José do Rio Preto que adquiram no tempo histórico algum relato místico e sobrenatural. Não guarda relações com a ciência, mas se enquadram no rool da memória, da história e da cultura, posto que são locais pelos quais pessoas desenvolveram vínculos, viveram e sentiram o que deles falaram ou presenciaram ver conceito de lugar em Geografia. Dessa forma, deixamos claro que o que desses lugares se falam são informações do senso comum, relatos; dentre outros de comprovação impossível.

Praça Rio Branco-centro de Rio Preto – foto Alexandre de Freitas.

Talvez o lugar que guarda mais misticismo em Rio Preto seja a Praça Rio Branco, onde se localiza o fórum central da cidade. Ali foi o primeiro cemitério de Rio Preto, depois do cemitério tornou-se um espaço vago e depois foi construído o grupo Cardeal Leme. Ouvem-se relatos de pessoas que sentem sensações estranhas desde os tempos do colégio, alguns comerciantes e funcionários de comércio das proximidades já relataram agouro e má sorte nos seus estabelecimentos.

Praça Ugolino Ugoline,
Vila Maceno – foto: Alexandre de Freitas.

Ainda se falando em campos santos, o segundo cemitério da cidade se localizava onde hoje é a praça Ugolino Ugoline, na vila Maceno. Hoje há uma escola infantil exatamente onde era a parte mais baixa do cemitério, as igrejas da paróquia Monte Serrat na parte de cima da praça, um coreto e um ponto de táxi.

Sobre o local as história são muitas, já surgiram relatos que acharam ossos quando foram fazer a orta da escola, espíritas já relataram que um centro próximo ao local foi construído com a finalidade de resgatar espíritos que habitaram os corpos que ali foram enterrados, existem também relatos de sensações estranhas de quem por ali passa constantemente.

Capelinha da avenida Mirassolândia – foto: Alexandre de Freitas.

Alguns lugares são fora de suspeita, essa capelinha existiu na avenida Mirassolândia próxima ao antigo bailão do São Pedro, mais exatamente no cruzamento com a avenida Antônio Marcos de Oliveira. Dessa eu tenho relatos mais próximos, meu avó (1919-2002) disse que por volta de 1930, uma pessoa dos sítios da região foi comprar formicida Tatu em Rio Preto a mando de um sitiante, bem ali, onde havia a capelinha, ele, a título de brincadeira, disse ao seu companheiro que iria colocar um pouco de formicida na boca para verificar o gosto, apesar do amigo ter o advertido o infeliz jogou um pouquinho na boca, relata-se que o homem caiu em poucos segundos e só deu tempo de dizer: é salgado.

Praça da fonte, na avenida Andaló – foto: Alexandre de Freitas.

A praça da Fonte, inaugurada em 1965 por Loft João Bassitt, fica próxima ao Mc Donald da Andaló, ao lado de um colégio. O lugar foi frequentado por mim, ali havia uma fonte na qual muita gente pegava água ou passava ali para matar a sede, no meu caso, já bebi muita água nessa fonte. Oswaldo Tonello em seu livro “São José do Rio Preto: memória de Oswaldo Tonello” na p. 37, relata que no local onde hoje é o Mc Donald havia um ramal d’água que abastecia algumas chácaras mais abaixo, hoje Santa Cruz. Ao que tudo indica, era um local muito propício à água. Quando se iniciou a obra ao lado, hoje o colégio, não se sabe ao certo, mas fonte secou ou foi desviada. Até aí nada de místico, mas dizem as pessoas ligadas às seitas esotéricas que conectam o ser humano à natureza que, uma agressão desse tipo é factível de uma maldição. Assim, tudo que por ali tentar se estabelecer sofrerá para ter sucesso comercial.

Antigo hospital Egas Munis – foto: Alexandre de Freitas.

Esse lugar também guarda muito misticismo, localiza-se na avenida e maio, próximo ao posto Cristo Rei (um empreendimento imobiliário deve estar prestes a demoli-lo), ali era um hospital psiquiátrico, para certas as pessoas locais como esse guardam energias negativas. São inúmeros os relatos de pessoas que relatam aparições e má influência. Muitas pessoa já relatam pelas nova mídias as histórias horripilantes sobre o local .ver reportagem do Diário da Região Muito antes de existir a internet comercial eu passava por ali no antigo estradão de terra que ligava o São Judas à Vila Toninho e ouvia essas histórias sobre o lugar.

Casarão abandonado na antiga fazenda do Zé Caseiro – foto: Alexandre de Freitas.

Para pessoas que moraram na Vila Toninho o lugar já causou muito arrepio, muitos diziam que era da época dos escravos (historicamente não) e os espíritos deles atormentam o lugar. Havia outras construções que deveriam ter sido preservadas, a sede mesmo foi demolida, na verdade era um lugar muito bonito com uma enorme represa, o bairro Santa Regina e o avanço de barracões comerciais acabaram com a história e a memória da localidade.

A propriedade misteriosa da Estância Jockey Club – foto: Alexandre de Freitas.

Essa propriedade causou muito medo em crianças e adolescentes que passam pelo local na década de 1980, eu já escrevi um artigo leia o artigo sobre o local e muita gente me pergunta se é verdade e eu digo: o medo é verdade, mas as causas reais do medo possivelmente não. Falavam-se em uma enorme casa mal assombrada e coisas de todos o s tipos.

Há outros locais dos quais muito se falam mas de minha parte eu não os vivenciei e nem explorei com profundidade. Dentre eles posso citar: o cruzeiro da Anchieta, ali parece que ocorreu um assassinato; o colégio em frente ao Rio Preto Shopping na avenida Francisco Chagas de Oliveira, parece que foi um hospital psiquiátrico; a catedral de Rio Preto para alguns também se equipara ao um lugar mística, pois ali estão enterrados padres e bispos.